3 In Textos & Crônicas

O preso.

Era uma tarde quente, ensolarada. Do lado de fora havia muito verde, bordados e borrados. Do lado de dentro as paredes eram brancas como a neve, havia uma só janela. Eu estava na casa daquela mulher como quem estava muito bem, mas na verdade não sabia onde estava nem o porquê. Não queria estar ali. Depois de alguns minutos (ou horas) me familiarizei com um ser, um ser semelhante a mim, ele era um pássaro. Eu não sou um pássaro, mas ele era. Eu estava aborrecida, não queria estar ali e ele também. Era isso. 

Ele era um pássaro com penas negras e bico amarelo, balançava a cabeça de vez em quando e encarava o branco das paredes. Logo senti pena, pois ele só conhecia o branco. Talvez nunca sentiu o áspero dos troncos das árvores, talvez nunca voou de uma árvore para outra. A vida dele era naquela gaiola que o prendia do seu verdadeiro ser, aquela gaiola o tomava, arrancara todos os seus sonhos, até suas asas. Talvez ele nem soubesse mais voar. Talvez ele não sabia o que era voar. Talvez ele não gostasse do granulado da ração que o fazia aguentar um dia após outro, mas o que ele poderia fazer? Absolutamente nada. Permanecia, pois era a única coisa que o restava. Permanecer. Imaginei o que ele achava das paredes, mas ele era inquietamente sozinho. Ele não achava nada, ninguém nunca tinha perguntado sua opinião e ele se acostumou com isso. Ele nem sabia o que era opinar. Imaginei o que ele sentia, se ele sabia o que eram os sentimentos, se ele sabia quem era Deus, mas eu acho que não sabia. O que será que ele tanto via nas paredes? Será que o branco dele era o meu verde? Ele conhecia as cores? Depois de tantas perguntas eu fiquei pasma e triste, pois a única resposta que eu recebia era a incerteza. Por um momento eu me encontrei com ele, eu percebi que ele me encarava como se respondesse todas minhas questões, isso durou uns quatro segundos, pois ele, logo depois, continuou a balançar a cabeça como sempre fez. Perdi-me em devaneios, pensava em como seria a vida dele nos próximos anos, até quando ele aguentaria, se ele queria morrer ou preferia ficar ali (se bem que as duas coisas se assemelhavam para mim), se ele encontraria um verdadeiro amor, o que ele achava da gaiola, se ele a considerava amiga, pois ela era a única que ficara com ele por todo aquele tempo.

Sonhei com aquele pássaro voando, enfeitando o céu azul e maravilhoso de alguma estação do paraíso. Sonhei até com o tal pássaro criando amizades verdadeiras, procriando e encontrando o sentido de ser pássaro entre as nuvens. Foi então que ouvi um barulho, enquanto as duas moças conversavam entre si e a televisão transmitia alguma novela, ouvi a janela bater e o vento se sufocar do lado de fora. Olhei de volta para a gaiola, ansiando por mais perguntas sem respostas, porém o pássaro não estava mais lá. O pássaro, que tão preso era, se fez livre.

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3 Comments

  • Reply
    Patricia Christmann
    abril 13, 2017 at 8:03 AM

    Que texto lindo!
    Tão puro de sentimentos.
    Parabéns, você escreve muito bem.
    Beijinhos

  • Reply
    Marcela
    abril 14, 2017 at 5:20 PM

    muito lindo.
    parabens

  • Reply
    Nina Novaes
    abril 17, 2017 at 2:37 PM

    Oi Amanda! Parabéns pelo texto <3
    Lindo!

    Psicose da Nina | Instagram

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